segunda-feira, 30 de março de 2026

Ponto de Ônibus

- O motorista está quatro minutos atrasado.

Na Rua João Abelardo Costa, quase esquina com a Rua Sabiá, um senhor aguarda sentado no banco de um abrigo de ônibus.

- Esse motorista quase nunca se atrasa, ainda mais com esses ônibus novos que a prefeitura comprou.

Agora, debaixo do mesmo abrigo, uma mulher de uniforme verde e um rapaz usando uma camiseta de banda. A primeira chegou calma, caminhando e ouvindo música com fones de ouvido. O rapaz, esbaforido, ficou aliviado de ver que o ônibus não havia passado.

- Olha lá o próximo ônibus no sentido oposto, isso que é pontualidade. Não é difícil obedecer a tabela, ainda mais em dia de sol assim. Sei que quando chove o trânsito é mais difícil, ou durante o fim da tarde. Mas agora não, era pra estar aqui as oito e quarenta, mas não tá. E eu sei bem que é esse horário, e quem está aqui sabe também. Alguma coisa deve estar acontecendo, não é possível.

O rapaz parecia impaciente, olhando fixamente para o fim da rua onde o ônibus apareceria. Não que tivesse muita coisa para se olhar, o bairro em volta era todo residencial, de casinhas simples, meio ultrapassadas, e ruas com poucos carros. A mais nova ficava bem na esquina, construída há alguns meses, com calçada em cimento e uma muda de árvore plantada na calçada.

- E que ideia de jerico essa de plantar árvore aqui perto do abrigo. Tenho certeza de que quando essa árvore crescer vai encher o chão de folhas e atrapalhar a visão pro fundo da rua, só pra mim não conseguir ver mais o ônibus vindo. Já são 6 minutos de atraso, um absurdo. Quando eu era mais novo, isso seria caso até de punição. Lembro bem de um motorista que começou bem nas primeiras semanas, mas que antes de fechar um mês no emprego passou a atrasar todos os dias. Pouco tempo depois desapareceu, deve ter sido demitido. Detesto quando atrasam. Eu sei o horário de todos eles, todos os dias.

O ponto de ônibus estava ali há muitas décadas, com seu banquinho de madeira e cobertura em fibra de vidro. Já havia recebido algumas melhorias antes, assim como recentemente a calçada nova. Não era dos mais bonitos, mas era útil para aquilo que se servia. Provavelmente será substituído em alguns meses, pois a prefeitura estava renovando os abrigos junto com a frota nova. Parte do progresso que chega, até mesmo aos bairros mais antigos. Assim como a rua que já fora de paralelepípedo um dia e hoje é de asfalto, um dia esse mesmo ponto será de aço e vidro, com um banco de concreto novinho. Porém, até esse dia, o banquinho de madeira é mais que suficiente. Para o senhor idoso, para a jovem de uniforme, e para o moço de camiseta de banda.

- Finalmente, 7 minutos de atraso em plena terça-feira, finalmente o ônibus das 08:12 está aqui. Não aguentava mais esperar. Eu vou ficar doido se os ônibus começarem a sair de ordem todo dia. Vai mais umas 3 voltas até o fim da linha pra ele conseguir ficar no horário certo, alguém precisa dar um puxão de orelha nesse motorista. Tenho certeza de que nas outras linhas que passam na rua de cima não tem esse problema. Justo comigo isso está acontecendo, é um tremendo descaso.

O ônibus para. Embarcam a jovem, o rapaz, e por último o idoso. As portas se fecham e o ônibus segue. Permanece o ponto. Ranzinza.

- Sete imperdoáveis minutos. E finalmente foi embora aquele velho, que cheiro insuportável. Ele sempre se senta no mesmo lugar, deixando o meu banco com esse fedor de velho. Eu não tenho mais idade pra esse tipo de coisa, não vejo a hora de me aposentarem.

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