Era certeza desde quinta que essa frente fria ia derrubar as temperaturas, a previsão disse no sábado que hoje ia ser pelo menos 15 graus mais frio do que foi sexta quando saímos do trabalho. Aí agora estou eu aqui, vendendo casquinha numa segunda-feira nublada e tremendo de frio porque minha chefa não confia em meteorologia. Na verdade, vender não vendemos nada, já são quase 13 horas e ninguém veio pegar uma sobremesa sequer. Nas últimas semanas fez um clima bem agradável e o movimento no horário do almoço e início da tarde era realmente exaustivo, eu e a Luiza mal conseguíamos das conta de fazer tanto McFlurry e de cobrar todo mundo que passava por aqui.
De uma semana super agitada, agora ambos estávamos presos em uma tediosa tarde gelada, em um quiosque minúsculo, esperando o tempo passar.
O tempo nublado, os ônibus na avenida, as pessoas passando com seus casacos escuros, alguns pombos...
"- Oi!"
"- Pois não, boa tarde! - confesso que tomei um susto, eu estava completamente distraído - qual seu pedido?"
Era uma garota de cabelo azul, de um tom quase fosforescente. Os olhos dela também eram desconfortavelmente muito azuis. Pele clara e cara de adolescente. Bonita como poucas.
"- Eu queria uma casquinha de baunilha, sem cobertura" - disse a garota, se apoiando sob o pequeno balcão do quiosque.
Então, quase 2 da tarde, fui fazer a primeira casquinha do dia. Me virei e de forma automática fiz a casquinha. Tira um guardanapo, pega o cone, posiciona na máquina, aciona, enche o cone, uma, duas voltas no sorvete, solta a alavanca, abaixa a casquinha, entrega pro cliente.
Luiza enquanto isso cobrou R$2,50 da menina, que parecia apressada. Assim que estendi a mão, ela pegou o sorvete, agradeceu e foi embora.
Com a casquinha consigo, atravessou a avenida e sumiu na multidão.
Não vendemos mais nada naquele dia.
Vazio, não é?
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